África
Foi com a música Jammu Africa, de Ismaël Lô, que entrei, pela primeira vez, em África. Ainda hoje me emociono e todo o meu corpo vibra quando a oiço.
A convite da minha querida Avelina Merkel, fui facilitar um workshop de Tambores no seu retiro. Cheguei a Dakar, no Senegal, com uma mala cheia de peles, aros e ferramentas para construir dezasseis Tambores! Agora penso nisso e não sei bem onde fui buscar toda a coragem... Ia fazer o Tambor número 100. Um grande marco na minha vida...
Pisar as terras da Mãe...
África, para mim, é Corpo de Mulher... Berço... Mãe...
Lembro-me de olhar nos olhos das mulheres africanas, com os seus filhos às costas, envolvidos em panos coloridos... Ainda hoje me emociono ao recordar esse instante.
Foi através daquele imenso espelho que reconheci, de uma forma muito profunda, o lugar de Mãe nesta existência... A confiança daquele gesto de colocar um bebé recém-nascido às costas e continuar a caminhar... Há uma sabedoria ancestral naquele movimento... Uma confiança que não precisa de palavras... Nesse instante reconheci tantos momentos da minha própria maternidade. Momentos em que simplesmente confiamos e o corpo sabe, encontra o gesto...
Lembrei-me do nascimento do meu primeiro filho. Cheguei ao hospital e pus-me, naturalmente, de cócoras, enquanto esperava para ser observada, e uma enfermeira disse, num tom pouco gentil:
"Pensa que está em África? Levante-se!"
Hoje responder-lhe-ia com um sorriso.
Sim... Sinto-me em África... Sou filha de África. Somos todos filhos de África... Porque é ali que reconheço a terra onde caminharam as minhas ancestrais.
As primeiras das primeiras Mães...
E talvez por isso o meu corpo, sem ninguém lhe ensinar, procurou aproximar-se delas. Acredito que todas as mulheres que estão a dar à luz trazem dentro de si essa memória. A memória do berço. A memória do corpo de Mãe... África é a matriz da Mãe e de toda a sabedoria do corpo materno que tanto precisamos de resgatar para parir naturalmente...
África foi um chegar a casa. Todo o meu corpo o soube antes de o conseguir explicar.
Uma alegria pura... Viva... Simples... As cores... Os sorrisos...
A beleza de um povo imensamente grande. A criatividade a transbordar por todo o lado.
Guardo tantas memórias desta primeira viagem. E de todas as outras que se seguiram. Viagens onde me fui entranhando nesta cultura, nesta forma de viver e nesta magia tão viva.
Em África senti que a fé e a Natureza caminham de mãos dadas. As cores permanecem abertas como um coração puro. Um coração que celebra a alegria de estar vivo, com tudo o que isso traz.
África é corpo de Mãe. É colo humano. É o berço da Humanidade.
Pisar esta terra dá-nos uma dimensão ancestral de quem somos. Como se o corpo recordasse aquilo que a mente nunca soube explicar.
Relembro cada instante como se fosse hoje. Que honra poder trazer esta Terra no meu coração.
Obrigada, Mãe África.
Obrigada, querida Avelina. 🙏🏻
Tété