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Um espaço onde
partilho histórias...

Reflexões, poesia, orações e inspirações.

Escrever é uma maneira de estar vivo.

José Saramago

Tamborar
Partilha Vida - Junho 2026 . Carcavelos

Tamborar

O Tambor chegou à minha vida de forma mágica... Lembro-me do primeiro círculo de celebração da Lua Cheia, na Quinta da Calma, facilitado pela sábia e grande amiga Luísa Perez. Foi aí que fiz a minha primeira viagem xamânica e, com ela, abriu-se uma enorme porta da minha visão… Parecia magia aquilo a que acedi… De uma forma tão simples, a minha alma falava comigo… Corri para casa e escrevi tudo. Ainda com as imagens vivas dentro de mim e toda a sua simbologia, escrevi como escrevo os sonhos: entre desenhos e palavras, tentando não deixar nada de fora. Passou a ser a minha prática. A cada Lua Cheia ia receber as mensagens através do toque do tambor. No fim dançávamos e quem tinha tambor tocava o seu, ou uma maraca. Todos em círculo, celebrávamos em partilha e alegria, num espaço seguro e sagrado. Mais uma Lua... Um dia, a Luísa emprestou-me o seu tambor para eu também poder tocar na roda da celebração. Foi uma sensação tão forte de estar viva, de encontrar uma parte de mim... difícil de pôr em palavras… Mais tarde, esta tribo linda, irmãos de alma e de caminho, organizou-se e ofereceu-me, como presente de aniversário, a construção do meu tambor com a querida Fiona Issler. Foi um dia inesquecível e assim nasceu o meu primeiro Tamborcito. A partir daí passou a ser o meu grande companheiro de viagem, de caminho, de vida. Agora faz parte de mim… Há quem me chame "a Tété dos Tambores". Dá-me sempre tanta ternura ouvir isso... Quando regressei a Lisboa, depois da separação, com os meus três queridos filhos para iniciarmos uma nova etapa das nossas vidas, resolvi, por graça, construir um pequenino tambor para o Vicente, o mais novo. Queria que, quando me acompanhasse nas minhas voltas, também tivesse o seu Tamborcito. Foi assim que nasceu o Tambor n.º 1! Mal sabia eu que estava a dar início a um caminho que nunca mais deixaria de me chamar e de abrir portas… Um caminho feito de muitas aprendizagens, encontros e momentos que guardo com enorme gratidão. Hoje, com cerca de 445 tambores construídos e facilitados, agradeço infinitamente por tudo o que este serviço me ensinou. Ao longo deste caminho tive também a alegria de facilitar, durante cinco anos, uma formação anual dedicada à arte de Tamborar. Um percurso de nove meses onde, mais do que aprender a tocar tambor, aprofundávamos a presença, a relação com o sagrado e a sabedoria da nossa essência que vive em cada batida. Deste caminho nasceram também cinco retiros de Tamborar, cheios de vida, verdade, alegria, simplicidade e essência. Dias onde o tempo parecia não existir e o Tambor nos reunia em círculo, recordando-nos a força da comunidade, da natureza e da celebração. Poder acompanhar o nascimento de tantos tambores, em tantos lugares, com pessoas de culturas, histórias e crenças tão diferentes, é um privilégio imenso. O Tambor é sempre o Tambor Sagrado. O pulsar do Coração Uno… É esta a visão que guardo no coração... Toda a humanidade a tocar tambor junta… Obrigada, Tamborcito, por todos estes anos de Tamborar…

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Consciência Sistémica
Partilha Vida - Abril 2026 . Carcavelos

Consciência Sistémica

Portimão · há cerca de sete anos. Há encontros que mudam a nossa vida para sempre. Este foi um deles. Faz mais ou menos sete anos que iniciei este encontro com a Consciência Sistémica. Estava em Portimão, a fazer uma formação facilitada pela querida Avelina Merkel sobre o trabalho com Cabaças para Doulas. Era uma formação apenas para mim e para a minha grande amiga e irmã, Tânia Surya. No dia da formação, a Tânia não pôde estar presente fisicamente. Uma grávida que acompanhava entrou em trabalho de parto... Estava tudo certo... E hoje percebo que aquele parto anunciava também outro nascimento. O meu... Começámos a formação e fomos gravando tudo para que a Tânia pudesse mais tarde acompanhar os conteúdos. Entretanto, o parto demorava e a Avelina pediu-me que enchesse uma cabaça grande com água. Depois colocou três pequenas cabaças, representando o pai, a mãe e o bebé. Disse-me: "Vamos ver como o parto está a decorrer." Naquele instante, alguma coisa mudou profundamente dentro de mim... E mudou também o meu olhar... A água, com a sua infinita sabedoria, começou a revelar o processo daquele parto, daquele campo. Fomos acompanhando o parto, a Tânia, à distância, no seu papel de Doula, e nós através da cabaça e dos movimentos das cabacinhas na água... Lindo... Mágico... As posições das cabaças, as ligações entre elas, os movimentos... tudo começava a contar uma história. Nunca tinha visto nada assim... Nesse dia, a Cabaça com Água entrou no meu coração e nunca mais saiu... Comecei, naturalmente, a levá-la para as minhas sessões de desenvolvimento pessoal. Pouco a pouco, comecei a reconhecer ligações, emaranhamentos e movimentos inconscientes que até então me passavam despercebidos. Era como se um novo olhar tivesse nascido dentro de mim... Percebi rapidamente que precisava de aprender mais... Precisava de ir beber a uma fonte experiente, compreender aqueles movimentos e aprender a facilitar aqueles campos com respeito, consciência e profundidade. Foi então que encontrei a minha querida professora, Paula Matos. E foi com ela que a Consciência Sistémica e a Terapia das Constelações Familiares chegaram oficialmente à minha vida. Foi um chegar a casa... Daqueles momentos raros em que sentimos que a Vida nos preparou uma cadeira perfeita para finalmente nos sentarmos, sem esforço... sem dúvida... apenas a sensação tranquila de estar exatamente onde sempre pertencemos. Perceber como podemos libertar aquilo que nos impede de sermos a expressão da nossa essência tornou-se um farol que continua, ainda hoje, a iluminar o meu caminho. Tem sido uma viagem profundamente bonita ao lado da Cabaça, das minhas cabacinhas e da Água. A Água... este elemento de puro amor que tudo abraça... tudo acolhe... e, com uma delicadeza infinita, nos mostra aquilo que precisamos de olhar mais amplamente, incluindo... equilibrando... ajudando-nos, pouco a pouco, a ocupar o nosso lugar no sistema e na Vida. Foi assim que nasceu a Terapia Sistémica com Cabaças, que a Tânia e eu fomos desenvolvendo ao longo destes anos. Cresço todos os dias, com cada história, com cada sistema, com cada família, com cada pessoa que confia em mim... É uma honra poder facilitar estes processos de tomada de consciência, onde um novo olhar se torna possível e onde o Amor Maior parece encontrar sempre uma forma de nos conduzir. Há uma frase que oiço muitas vezes no final das sessões: "Não estava à espera disto!..." É emocionante assistir ao momento em que algo encontra finalmente o seu lugar... Entre lágrimas... entre silêncios... entre sorrisos... saímos mais inteiros, mais reconciliados com a nossa história e mais livres para caminhar em direção ao futuro. Somos filhos, netos, bisnetos, trisnetos de tantos outros antes de nós... Transportamos muitas histórias... muitas alegrias... muitas dores... muitos sonhos... E um dia seremos também aqueles que contribuíram para que a Vida continuasse a seguir em frente, da melhor forma que soubemos, no nosso tempo e na nossa cultura. Honrar... Aceitar... Amor Maior... São talvez as três palavras que melhor resumem aquilo que a Consciência Sistémica me ensinou. Agradeço profundamente a Bert Hellinger por ter desenvolvido e partilhado esta filosofia de vida e esta forma tão transformadora de olhar para o ser humano e para a existência. E agradeço, de coração, a todas as pessoas que escolhem confiar neste processo. Cada sessão continua a lembrar-me que, muitas vezes, aquilo que procuramos transformar não precisa de ser mudado... Precisa apenas de ser visto, reconhecido e incluído no nosso coração... Sempre no Coração...

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Dança...
Poema - Dezembro 2025 . Carcavelos

Dança...

Dança… Dança… Dança… Dança o frio, o vento, a chuva, as ondas, os trovões… Dança as nuvens, o cinzento, o escuro, o mistério, o subtil, a maresia… Dança aquilo de que tens dúvidas, o que te irrita, o incerto, o canto dos pássaros, o olhar atento… Dança o sorriso, a mágoa, a luz, a magia… Dança o sim, o não, o vou, o não vou, o quero e o não quero… Dança a semente do sonho, a espera infinita, a realização do pedido, a frustração do que não chega… Dança a tristeza, a angústia, o toque, o beijo, o entusiasmo, a revolta, a injustiça, a vergonha, a doçura, o choro, o calor do colo quentinho… Dança a coragem, a curiosidade, a beleza, o quente, o frio, o arrepio, o espanto, o susto, a morte, a vida… Dança… Dança… Danço…

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Vida Simples
Reflexão - Junho 2025 . Carcavelos

Vida Simples

Há dias em que nos despimos daquilo que sentimos faltar e escolhemos simplesmente estar. Aceitamos a vida tal é e tiramos partido, com alegria, do que ela coloca nas nossas mãos. Sem queixas. Sem pressa. Sem exigir mais nada. Sinto que temos sempre o suficiente para criar. Para sermos artistas da nossa própria existência e contribuir com a beleza única que só cada um pode dar. Hoje foi simples... Uma caneta Bic, a companhia do mar, um pôr do sol que parecia não ter fim e uma pedra mármore branca... Foi o suficiente para a criatividade encontrar espaço e expressar-se... Sem esforço... Sem exigência... Vida simples...

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Natureza
Partilha Vida - Maio 2025 . Carcavelos

Natureza

Há 29 anos estava eu a caminho da grande aventura de contacto com a Natureza... O que hoje sei é que estava, afinal, a caminho da minha própria Natureza. Era, nessa altura, uma "menina da cidade", totalmente encaixada nas rotinas da vida citadina. Entre programas múltiplos, compromissos sociais, uma grande família e um trabalho seguro como designer gráfica, tudo corria com bastante normalidade quando me foi proposto casar e ir viver para o Belize, nas Caraíbas! Lembro-me de ter ficado zonza... Largando tudo, abracei esta aventura. E foi assim que iniciei aquilo que hoje reconheço como o princípio da busca da minha essência. Às vezes a vida faz assim... Chama-nos de repente... Com o coração... Com fé... E com essa vontade viva de entrega, amor, mudança e mundo novo que, silenciosamente, nos habita. Agradeço, até ao fim dos meus dias, esta ousadia do pai dos meus filhos por me ajudar a despir as vestes da cidade e entrar na Rain Forest. Foi uma das maiores prendas da minha vida. Por mais que passem os anos, continua tudo vivo em mim. Em cada célula. Durante um ano, a Natureza foi a nossa casa. Hoje, tantas vezes me teletransporto para esses dias e volto a sentir, no corpo, o prazer imenso de estar lá. Uma vida tão boa. Tão simples. O rio... Como vivíamos no interior, eram estas as águas onde todos os dias me entregava. Ainda hoje sinto a sensação de entrar naquelas águas turvas... Tanta vida. Tanto verde. Tanto bicho. Tanto descanso. Calor. Pintura. Barro. Paisagens. Iguanas. Aranhas. Pássaros. Cobras. Casa de madeira. Tanto Amor. Tanta Coragem. Tanta vibração. Tanta criatividade. Tanta cor. E uma paz de espírito difícil de explicar. Hoje percebo que essa foi a minha maior iniciação. Foi ali que comecei verdadeiramente o caminho para chegar a quem Sou. Na altura não o sabia. Hoje reconheço que aquele contacto profundo com a Natureza foi uma das maiores bênçãos da minha vida. Foi também naquele lugar mágico que engravidei do meu filho mais velho. E aí começou outra grande aventura. Ser Mãe. Tinha apenas 26 anos. Estava do outro lado do oceano, num lugar com muito pouca, ou quase nenhuma, assistência médica, à espera do nascimento do meu primeiro bebé. E, de repente... Tudo muda. Voltei. Portugal. Esse rebento dessa aventura vive hoje na Austrália. Faz agora um ano que pisei essas terras e, mais uma vez, toquei essa parte de mim que nunca deixou de existir. Percebi que nunca foi apenas uma viagem. Foi um regresso. Porque sou Natureza. Sempre fui. Apenas precisei de regressar para me recordar. A arte da Natureza.

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Oração à Paz
Oração - Julho 2023 . Carcavelos

Oração à Paz

Que a paz possa se manifestar... Que surja o milagre ... Que a paz possa encontrar o caminho bem de dentro de cada um de nós... como um rebento... Que o milagre aconteça... Que a Paz cante bem alto dentro de cada um de nós... Visualizo o grande abraço... Fecho os olhos e dedico a minha visão a Paz... Uma enorme dança, um lindo canto, um gigante quadro humano lindo de tanto amor... onde a diferença é a pura beleza, onde todos os deuses dançam juntos e a terra abre os braços e as fronteiras derretem e os céus irradiam... Sabemos por fim que somos Um... Que surja o milagre... ⚜️ Pela Paz...

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A vida é uma enorme tapeçaria...
Reflexão - Maio 2023 . Carcavelos

A vida é uma enorme tapeçaria...

Todos estamos ao mesmo tempo a criar a textura do que chamamos vida... Todos vamos tecendo sem nos darmos conta através do gesto, da palavra, do pensamento, da vibração.... Tudo se traduz em energia, em códigos criativos... Trazer mais e mais consciência ao que nos habita é tecer em mestria... Rendermo-nos a esta nossa ainda inconsciência que nos coloca no lugar do aprendiz é humildade... Aceitar o grande mistério da vida que como a linha do horizonte nos guia e se mantém eternamente distante é Aceitação... Caminhar a vida é tecer sabendo que esta é eterna e está sempre sempre em movimento, em transformação em perpétuo acto criativo... Criar é inerente a viver... Assim sinto a vida... Assim vejo Deus... A Arte viva de Sermos…

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África
Partilha Vida - Janeiro 2023 . Carcavelos

África

Foi com a música Jammu Africa, de Ismaël Lô, que entrei, pela primeira vez, em África. Ainda hoje me emociono e todo o meu corpo vibra quando a oiço. A convite da minha querida Avelina Merkel, fui facilitar um workshop de Tambores no seu retiro. Cheguei a Dakar, no Senegal, com uma mala cheia de peles, aros e ferramentas para construir dezasseis Tambores! Agora penso nisso e não sei bem onde fui buscar toda a coragem... Ia fazer o Tambor número 100. Um grande marco na minha vida... Pisar as terras da Mãe... África, para mim, é Corpo de Mulher... Berço... Mãe... Lembro-me de olhar nos olhos das mulheres africanas, com os seus filhos às costas, envolvidos em panos coloridos... Ainda hoje me emociono ao recordar esse instante. Foi através daquele imenso espelho que reconheci, de uma forma muito profunda, o lugar de Mãe nesta existência... A confiança daquele gesto de colocar um bebé recém-nascido às costas e continuar a caminhar... Há uma sabedoria ancestral naquele movimento... Uma confiança que não precisa de palavras... Nesse instante reconheci tantos momentos da minha própria maternidade. Momentos em que simplesmente confiamos e o corpo sabe, encontra o gesto... Lembrei-me do nascimento do meu primeiro filho. Cheguei ao hospital e pus-me, naturalmente, de cócoras, enquanto esperava para ser observada, e uma enfermeira disse, num tom pouco gentil: "Pensa que está em África? Levante-se!" Hoje responder-lhe-ia com um sorriso. Sim... Sinto-me em África... Sou filha de África. Somos todos filhos de África... Porque é ali que reconheço a terra onde caminharam as minhas ancestrais. As primeiras das primeiras Mães... E talvez por isso o meu corpo, sem ninguém lhe ensinar, procurou aproximar-se delas. Acredito que todas as mulheres que estão a dar à luz trazem dentro de si essa memória. A memória do berço. A memória do corpo de Mãe... África é a matriz da Mãe e de toda a sabedoria do corpo materno que tanto precisamos de resgatar para parir naturalmente... África foi um chegar a casa. Todo o meu corpo o soube antes de o conseguir explicar. Uma alegria pura... Viva... Simples... As cores... Os sorrisos... A beleza de um povo imensamente grande. A criatividade a transbordar por todo o lado. Guardo tantas memórias desta primeira viagem. E de todas as outras que se seguiram. Viagens onde me fui entranhando nesta cultura, nesta forma de viver e nesta magia tão viva. Em África senti que a fé e a Natureza caminham de mãos dadas. As cores permanecem abertas como um coração puro. Um coração que celebra a alegria de estar vivo, com tudo o que isso traz. África é corpo de Mãe. É colo humano. É o berço da Humanidade. Pisar esta terra dá-nos uma dimensão ancestral de quem somos. Como se o corpo recordasse aquilo que a mente nunca soube explicar. Relembro cada instante como se fosse hoje. Que honra poder trazer esta Terra no meu coração. Obrigada, Mãe África. Obrigada, querida Avelina. 🙏🏻

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